Com ramos nas mãos…

Embora celebremos todos os dias, na liturgia, o mistério pascal de Cristo, anualmente nos dedicamos a fazer memória dos últimos acontecimentos da vida de Jesus, em especial a partir daquilo que nos relatam os Evangelhos. Por nos tirar da rotina, a semana “santa” – que não é para lazer –, nos faz verdadeiros peregrinos, ao conduzir-nos para o mistério de Cristo presente em sua Igreja. Daí ser denominada “Santa”, ou uma “Semana Maior”. Maior em todos os sentidos: não por tratar de um evento meramente cultural-religioso, ou dias para exercermos o papel de turistas interessados em fatos do passado. Nela veremos o quanto o amor é capaz de tudo. Eis a razão da nossa imersão nas celebrações e procissões características desta grande semana.

Conduzidos por Jesus, que ardentemente desejou comer conosco a ceia pascal antes de voltar ao Pai (cf. Lc 22,15; Desiderio Desideravi, n. 2), iniciamos a Semana Santa com as celebrações do Domingo de Ramos da Paixão do Senhor. Esse domingo, que corresponde ao 6º da Quaresma, recorda-nos, desde a antiguidade, a entrada de Jesus em Jerusalém, acolhido entre palmas e hosanas pelas crianças hebreias que foram ao seu encontro (cf. MISSAL ROMANO, p. 221, n. 9; Paschalis Sollemnitatis, n. 29). Essa celebração, une num todo o triunfo real de Cristo e o anúncio da paixão (cf. PS, n. 28).

Ao fazer memória da entrada triunfal de Cristo, imitando o povo que aclamou Jesus com alegria, carregando ramos verdes nas mãos, não só o homenageamos como o Messias, mas manifestamos o nosso desejo de caminhar com Ele, nosso Rei, até a Jerusalém do alto (cf. 1ª opção de Oração de Bênção dos Ramos). Por outro lado, os ramos caracterizam aqueles que experimentaram o martírio e carregam a palma da vitória (cf. Ap 7,9), e, ainda, são memória das boas obras que frutificamos pela caminhada quaresmal e que apresentamos ao Cristo vencedor (cf. 2ª opção de Oração de Bênção dos Ramos). Esses mesmos ramos, no ano seguinte, são queimados e utilizados como as cinzas impostas sobre as nossas cabeças na Quarta-feira de Cinzas, para recordar-nos que não estamos prontos, mas sempre a caminho.

Há um outro aspecto, além da entrada triunfal de Jesus, que fazemos memória e que não pode passar despercebido: o mistério da Paixão do Senhor. O rei que outrora aclamamos com nossas hosanas, por nós é desprezado e conduzido à morte de Cruz (cf. Mc 15,7-15;24). Pela Palavra proclamada nos colocamos não como quem assiste uma apresentação teatral, mas como quem contempla o Mistério da Paixão de Cristo, permitindo que tal mistério nos toque, nos envolva. O exemplo de entrega e obediência por parte de Cristo é uma grande lição para nós.

Embora celebremos um mistério envolto em triunfo e fracasso, celebramos a glória de quem nos amou e se entregou por nós. Seu sangue derramado gera vida e transforma a existência daqueles que caminham não apenas com ramos nas mãos, mas com a vida nas mãos de Deus. A súplica da Igreja no Domingo de Ramos deve também ser a nossa: “como pela morte do vosso Filho nos destes esperar o que cremos, dai-nos, pela sua ressurreição, alcançar o que buscamos” (Or. Pós-Comunhão). Entremos com Cristo, na Semana Maior, com a grande expectativa do Domingo da Páscoa, de com Ele ressuscitarmos e alcançarmos a eternidade feliz que tanto desejamos.

Pe. Cleydson Rafael Nery Rodrigues
Coord. do Secretariado para a Liturgia

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