O papel da Igreja diante do ‘inevitável e incontrolável progresso’ da mineração

Os impactos da mineração no cerrado foi o tema central do encontro que reuniu mineiros e baianos, em Montes Claros, entre os dias primeiro e três de março. O evento, promovido pela Comissão Pastoral da Terra (CPT), foi realizado na Casa de Nazaré, com a participação de 82 inscritos.

Paulo André Alves de Amaral, um dos coordenados da CPT, no Estado de Minas Gerais, vê com preocupação muito grande a extração mineral no Norte de Minas e Sul da Bahia, para ele “a mineração está chegando de forma avassaladora e destruindo tudo”.

Um dos objetivos do encontro, segundo Paulo André, é propor a organização das comunidades tradicionais, que vivem nos territórios ameaçados pela mineração, para que não deixem que as mineradoras avancem.

Geraldo Cesar Durães veio de Berizal (MG) para o encontro, ele afirmou que adquiriu aprendizado e experiência para levar para a sua cidade. Berizal ainda não foi afetada diretamente pela mineração, de acordo com Geraldo Cesar, mas já está sendo realizado um trabalho de conscientização com as famílias para não aceitaram qualquer proposta que receberem. “Não podemos aceitar, eles vêm com histórias bonitas de emprego, que vão melhorar as estradas e depois quando tudo acaba eles vão embora e não fica nada”, afirmou.

Ao ser questionado sobre o desenvolvimento e o progresso na região com a vinda das empresas mineradoras, Geraldo Cesar respondeu, que os benefícios ficam nas mãos de poucas pessoas e que os prejuízos com o meio ambiente são maiores.

Natural de Encruzilhada, na Bahia, Edilene Alves Silva representou o CPT do Estado no encontro sobre os impactos da mineração no cerrado. Para Edilene, é a partir de reuniões e encontros com as pessoas atingidas pela mineração que se deve buscar os meios cabíveis de mobilização e também de fortalecimento das comunidades.

“Aqui em Minas a gente percebe que a mineração chegou e já destruiu bastante e na Bahia ela está chegando, está se aproximando das comunidades, fazendo estudos e pesquisas. Eles chegam nas comunidades como se fossem amigos e com isso eles acabam fazendo a cabeça da maioria da população”, ressalta a representante da CPT da Bahia. Edilene acredita que a partir da igreja, dos movimentos sociais e entidades é possível fazer um trabalho de formação e sensibilização das comunidades para que elas não aceitem que a mineração tome conta dos territórios que estão previstos na região.

O Arcebispo de Montes Claros, Dom José Carlos de Souza Campos, foi convidado pela organização do evento para falar da sua visão sobre a questão da mineração no Norte de Minas e quais as luzes que a Igreja local aponta sobre esta realidade.

A partir da Palavra de Deus e do Magistério da Igreja, D. José Carlos expressou a sua profunda comunhão com o Papa Francisco. O arcebispo iniciou a sua fala com a narrativa da criação, no capitulo um do livro do Gênesis. Ele destacou que quando Deus criou o homem e o colocou para dominar toda a terra não significa que fez do homem um predador, que destrói; mas como jardineiro, como aquele que cuida.

Com base na Constituição Pastoral ‘Gaudium es Spes’, documento do Concilio Vaticano II sobre a Igreja no mundo atual; D. José Carlos ressaltou que “a ordem das coisas deve subordinar-se à ordem das pessoas, as pessoas estão acima das coisas”.

De acordo com o arcebispo de Montes Claros; “nós estamos diante de um inevitável e incontrolável progresso”.

“Não há um comitê de ética que decide o que podemos ou o não podemos fazer para avançar. As grandes mentes pensantes do mundo, e essas mentes nem sempre são cabeças, mas são máquinas; levam adiante, de modo inevitável o incontrolável progresso”. Afirmou.

D. José Carlos observou que estar contra o capitalismo não significa ser comunista. “Dos dois lados há grandes e graves contradições. Não se trata de condenar este sistema para afirmar o outro. Onde não há liberdade não há dignidade. Onde não há respeito à vida não há dignidade”.

Foto: Júlia Barbosa | Comissão Pastoral da Terra

Diante do ‘inevitável e incontrolável progresso’, o arcebispo delineou quatro indicações iluminadoras:

1ª – Tomada de consciência da engrenagem

D. José Carlos observou que nas comunidades existem pessoas com pensamentos diferentes em relação aos riscos causados pela mineração e que é preciso fazer com que elas tenham consciência destes perigos.

“Os mecanismos que os gigantes usam conseguem anestesiar, conseguem vendar, conseguem mudar o discurso”, destacou o arcebispo. Diante deste contexto a tomada de consciência é fundamental.

2º – Senso de coletividade e do bem comum

Para D. José Carlos, a tomada de consciência surge a partir do senso de coletividade e do bem comum. “Se não houver um senso de coletividade, se a gente não conseguir costurar vidas, se a gente não conseguir fazer pensar no bem comum, fica fácil para as grandes mineradoras avançarem”.

3º – Memória e projetos

“Fazer memória é olhar para traz e fazer projetos é olhar para frente”, pontuou D. José Carlos. Para ele, a comunidade precisa olhar para traz e perceber o que os seus antepassados cultivaram, que aquela terra faz parte da história. “Um povo sem memória se vende fácil”, afirmou.

Para D. José Carlos, pensar projetos em comum é um dos grandes desafios. “Estamos cheios de sonhos particulares, não temos mais sonhos coletivos. Este é um desafio da mentalidade do nosso tempo”.

Uma das soluções, segundo o arcebispo, é a criação de associações e cooperativas. De acordo com ele, enquanto as pessoas caminharem sozinhas as empresas terão facilidade em convencê-las. “Quando a conversa for de um para um, vai ser fácil convencer com dinheiro e narrativas. Quando a conversa for coletiva é possível ter esperança”.

4º – Papel conscientizador da fé

“Não dá para rezar sem ter presente a criação como grande dom”, afirmou D. José Carlos. Para ele, não dá para ter prática de piedade “sem a gente trazer para dentro desta piedade nossa, a vida, as pessoas, as contradições e as perversidades deste nosso tempo”.

“Rezamos porque estamos vivos. Se a gente não interferir no progresso que avança sem ética e sem nenhum princípio evangélico, certamente daqui a pouco não haverá vida nem humana e nem outra forma de vida em nosso planeta”. Concluiu o arcebispo de Montes Claros.

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