Padre faz artigo sobre escola

O lugar da alteridade ética nas práticas psicopedagógicas.

*Por Pe. Geraldo Afonso

Orientada para as práticas pedagógicas que visam a educação e a instrução do sujeito, a escola é por excelência o lugar privilegiado da construção e promoção da alteridade. Desse modo, as práticas pedagógicas precisam possibilitar em suas dinâmicas, a criação de espaços que favoreçam ao estudante a desenvolver de forma integral sua singularidade assim como também a sua subjetividade. Do ponto de vista ontológico, o ser humano se revela como o ser das múltiplas possibilidades, o que requer da parte dos educadores, sensibilidade pedagógica para despertar e fazer emergir o seu potencial latente no que tange o desenvolvimento das suas faculdades humano-intelectuais. Uma vez que a prática escolar consiga possibilitar ao aluno um maior grau de educação e civilidade, consequentemente, ele terá maior facilidade de se ver no outro que muitas vezes sofre. Somente pela humanização o ser humano conseguirá atingir a sua plenitude e poderá conhecer verdadeiramente o seu verdadeiro ser. Desse conhecimento, no entanto, depende todo o seu agir no mundo. O conhecimento do seu ser afeta necessariamente o seu agir, porquanto ‘agere sequitur esse’ (o agir segue ao ser). O homem que realmente sabe o que ele é agirá em conformidade com o seu ser. A sua ética assumirá as cores da sua metafísica.  (HODEN, 1997, p. 29).

A priori, educação é integração social, aprender a conviver com. É fazer experiências que levem os estudantes a construir os seus valores, contudo, valores que levem em conta a alteridade e se configuram pelo respeito, pela ética, enfim, pela dignidade minha e do outro. Pois como afirma SAVATER, 2001, p. 147, “Ninguém chega a se tornar humano se está sozinho. Nós nos fazemos humanos uns com os outros”.

Não acreditamos ser possível falar de educação sem um olhar mais profundo sobre a conduta humana. Somos seres de relações, e dela depende o bom relacionamento com o outro, com o mundo e conosco mesmo. O aluno que é versado na instrução intelectual, porém é marcado pela carência de formação humana, é um indivíduo com alta probabilidade de se fechar em si mesmo. No campo profissional, provavelmente, terá dificuldades de socialização, pois o trato social requer afetividade, e ninguém tem prazer em se relacionar com pessoas chamadas “mal resolvidas”, frias no trato, mal humoradas, incessíveis etc. Do contrário, todos nós gostamos de nos relacionarmos com pessoas chamadas “bem resolvidas”, afetivas, capazes de se colocar no lugar do outro para entendê-lo etc. Por isto, não podemos pensar a pedagogia, sem os meios necessários para oferecer aos estudantes uma formação que lhe garanta uma educação holística centrada na formação intelectual mas também humana.

Não raros são os educadores que confundem educação com instrução. Pensar assim é acreditar que, pelo simples fato de uma pessoa ter conhecimentos e ser intelectualizada, ela tenha desenvolvido as suas faculdades humanas, e isto não é verdade, pois, há muitas pessoas extremamente instruídas nos conhecimentos, no entanto, com pouco aprimoramento humano. Desse modo, não podemos confundir educação com instrução intelectual, pois são coisas distintas, embora, ambas, educação e instrução devam andar juntas na escola. Neste sentido, acreditamos que somente um ensino voltado para a formação integral da pessoa humana, poderá ser chamado de educação. Isto, pelo fato da formação integral contemplar também a formação humana. No entanto, ainda há muita confusão a esse respeito, uma vez que as pessoas no geral usam a expressão “educação”, quanto na verdade elas estão falando é de instrução.

Esta formação humana poderia ser trabalhada o tempo todo nas escolas, porém não temos o costume de articular uma disciplina com outro viés. Se tivéssemos, seria muito fácil trabalharmos as matérias ancoradas numa filosofia humanística. Com isto, a formação humana seria trabalhada e as matérias ganhariam uma conotação mais humana. Assim, a ideia e o discurso filosófico sobre o fim de qualquer conhecimento seria o aprimoramento humano da pessoa. As disciplinas seriam mais humanizadas e ganhariam um novo sentido. Esta seria uma forma educativa e pedagógica de se trabalhar a formação humana de forma implícita.

Hoje em dia o nosso fazer pedagógico está bastante centrado no desenvolvimento de conteúdos de cunho intelectual, o que faz com que os professores se voltem para o “conteudismo” técnico. Muitas vezes vazios de sentido para a vida. Neste sentido, Paulo de Camargo quando era consultou do MEC, disse que, “a escola superestimava o  “explícito e subestima o tácito”, vejamos:

Hoje, a escola superestima o explícito e subestima o tácito. Isso é grave, pois na questão dos valores, por exemplo, o tácito é muito mais importante do que o explícito. Pode criar várias disciplinas falando de cidadania, honestidade. Os valores têm de ser vividos, vivenciados, ou a escola se torna uma fábrica de cínicos. O maior erro é subestimar o tácito, pois viveremos a vida toda entre o mundo do tácito e do explícito. Na verdade, podem até achar ruim eu dizer isso, mas acho mesmo que o bom professor é aquele que ensina tacitamente. É desse que nos lembramos, sempre. (CAMARGO, 2001).

Nunca podemos nos esquecer que o papel da escola vai muito além do aprimoramento intelectual ou mesmo de uma instrução que o leve, a saber, quais são os seus deveres e direitos na sociedade. Do ponto de vista da formação integral, educação e instrução devem andar juntas formando uma “simbiose” perfeita. Não se pode pensar a excelência de uma escola que prima pela instrução e se esquece da educação do aluno, ou seja, da sua formação humana.

Embora a formação do sujeito aconteça também fora do espaço escolar, sabemos que não existe outro ambiente tão rico de possibilidades como a escola para a formação integral do sujeito, visto que ela cria um ambiente onde o estudante é levando a confrontar os seus valores com os valores estabelecidos e acumulados pelo patrimônio cultural, científico e social que cerceia as relações humanas. Desse modo, a escola é rica ao possibilitar as relações humanas e aprimorar os saberes do indivíduo. Enfim, nela se aprende a trabalhar em grupo, fazer reflexões no campo das ideias e corrigirem em si, aquilo que se percebe de egoísmo para viver experiências democráticas à luz da alteridade.

*Artigo enviado pelo Padre Geraldo Afonso – Vigário da Paróquia São Gonçalo de Francisco Sá . 

 

 

 

 

 

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